Antes de alguém pensar que o título de nossa reflexão é uma expressão racista, quero dizer que “a noite escura da alma” é um poema do frade carmelita João da Cruz, um dos maiores poetas espanhóis do século XVI. O que é a noite escura retratada no poema? É o deserto árido que atormenta as pessoas que se dedicam com afinco e seriedade às práticas religiosas.
Quando lemos o salmo 42, escrito pelos filhos de Corá (músicos do templo), vemos retratado o anelo profundo da alma de um adorador privado do santuário e do culto congregacional. O comentarista Warren Wiersbie diz: “Fica claro que o autor era um levita exilado no meio dos gentios que o oprimiam e questionavam sua fé” (v.3).
Para o salmista, essa foi a sua noite escura da alma. Ele sentia Deus ausente e, por isso, abre o salmo com a declaração de que sua alma suspirava por Deus. Spurgeon diz que “este salmo é a voz de um crente espiritual, sob tristeza, desejando ardentemente a renovação da presença divina, lutando com dúvidas e medos”.
O que acontece quando nos deixamos levar pelo pensamento que Deus está ausente? Começamos a viver um ciclo de lágrimas (v.3). Vemos essa realidade na vida do salmista. Ele passou a viver do choro e a se alimentar dele. É o processo de retroalimentação da agonia e tristeza. Ele era oprimido e chorava, se deprimia; porque se deprimia, chorava; poque chorava, se deprimia. A grande questão é que, se tirarmos Deus da equação da vida, ela se tornará um fardo muito grande. O que fazer quando enfrentamos a noite escura da alma? O salmista nos dá algumas respostas.
Em primeiro lugar, anseie pelo Senhor (v.1). Aqui, o salmista revela seu profundo anseio pela presença de Deus. Ele sabe que a única forma de ter saciedade é estar diante do Senhor. É interessante observar que o autor não buscava bem-estar, não desejava honra, só o prazer da comunhão com Deus. Ele tem sede, não de prosperidade e riqueza, saúde e sucesso, mas de Deus, a quem ele denomina Deus vivo, dono de sua vida, e ele não poderia viver sem o Senhor.
Em segundo lugar, afirme a sua alma que o auxílio de Deus é certo (v.11). É justamente quando nossa alma está abatida, mergulhada em grande tristeza e dor, é que colocamos em xeque a bondade do Pai e, consequentemente, não conseguimos adorá-Lo. O que o salmista faz é dizer a sua alma que ele esperaria no Senhor, pois Ele seria o seu auxílio. Com isso, reafirma que a ajuda do Pai é certa e no momento oportuno. Deus não se esqueceu de você, de mim, de nós. A nossa causa está bem viva no coração dEle. Confronte a sua alma e espere pelo socorro e livramento celestial. O escritor do salmo diz que ainda louvaria o Criador. O escritor Caio Fábio diz: “Enquanto houver um ainda na vida, está tudo bem; enquanto você puder colocar um ainda no meio das frases, das conjugações, da sua linguagem, da sua existência – está tudo muito bem. Ainda virá o socorro; ainda vira o livramento; ainda nascerá a salvação”.
Em terceiro lugar, questione as razões do abatimento de sua alma (v.5). Aqui, o salmista se entrega a um solilóquio, uma conversa diante do espelho, questionando a si mesmo acerca das razões do abatimento de sua alma. A primeira coisa a se fazer quando parece que Deus está indisponível aos nossos olhos é perguntar à alma a razão dela estar azeda e cheia de amargura, cheia de autopiedade. A cura para a alma passa pelo diagnóstico correto. Não existe a possibilidade de cura sem que antes se descubra as causas da doença.
Em último lugar, não alimente em seu coração palavras destrutivas (v.10). A crise do salmista está aprofundada pela atitude e pelas palavras de seus oponentes, que escarneciam dele continuamente e colocavam em xeque o amor e a bondade de Deus, ao dizerem: “o teu Deus, onde está?”. Para os seus inimigos, Deus havia se afastado dele. Eles sugerem que Deus é incapaz de socorrê-lo.
As palavras têm poder. Tanto os melhores quanto os piores momentos que tivemos na vida estiveram, de uma forma ou de outra, relacionados com palavras que foram ditas. O salmista estava sofrendo por conta das palavras destrutivas de seus adversários. Por isso, é importante agasalharmos em nosso coração a premissa de que não devemos alimentar nossa alma com palavras destrutivas. Hernandes Dias Lopes diz: “A língua corta mais fundo do que uma faca afiada e chega até os ossos”.
José Manuel Monteiro Jr., pastor, colaborador de OJB