Valtair A. Miranda, pastor da Igreja Batista do Meier - RJ e docente do Seminário do Sul e da FABAPAR.
A maior parte do conteúdo dos livros da Bíblia correu durante um bom período apenas de forma oral. Antes de haver rolos, pergaminhos ou tinta, a revelação estava na boca das pessoas, transmitida de pai para filho no cotidiano das famílias e nas reuniões comunitárias.
O meio mais popular de transmissão era a narrativa. Histórias do passado do povo de Deus que tinham muito a ensinar para os novos membros deste mesmo povo. Eram relatos que moldavam a identidade daquela gente. São as narrativas de como o pecado entrou na humanidade, de como a raça humana se perdeu, de como eles escaparam da opressão dos egípcios e de como finalmente chegaram à Terra Prometida. Contar o passado era preservar uma memória antiga, mas também ensinar às novas gerações quem Deus era e como ele agia na história.
O processo de transmissão da Palavra de Deus muito se assemelhou à forma como atualmente nossas Igrejas crescem através da pregação. A própria pregação é, na sua essência, um tipo de tradição oral. Nela, o pregador reconta aquilo que Deus fez no passado e, a partir desse relato, chama os ouvintes a um compromisso prático com este mesmo Deus no presente.
A diferença entre a tradição oral cristã e a dos judeus antigos está em que atualmente já temos um cânon fechado das Escrituras, e eles ainda não tinham. Hoje, o pregador abre a Bíblia que já contém o texto revelado; eles, no início, só tinham a pregação viva e a memória compartilhada.
A transmissão oral foi o meio pelo qual a revelação de Deus foi transmitida durante muito tempo sem qualquer documento escrito. O mesmo fenômeno se deu, posteriormente, com o Novo Testamento. Várias décadas se passaram entre o ministério terreno de Jesus e o aparecimento dos evangelhos que narraram este mesmo ministério. Durante esse intervalo de anos, a Igreja já existia, crescia, evangelizava e plantava novas comunidades fundamentada no testemunho falado dos apóstolos.
Alguns estudiosos da Bíblia se concentram no evento narrado. Outros procuram estudar o momento em que ele foi registrado por escrito. São especialidades bíblicas diferentes, e ambas têm o seu valor. É importante saber situar historicamente os eventos que o livro narra, mas, muito mais do que situá-los no tempo, precisamos compreendê-los como o seu escritor queria que eles fossem compreendidos. Isso significa que a teologia bíblica tem como missão trabalhar tanto com os textos bíblicos quanto com o momento histórico em que eles surgiram.
Quando os autores bíblicos narram fatos dos tempos antigos, nosso objetivo principal deve ser entender por que e para que eles o fizeram. O autor ou redator de um livro do Antigo Testamento, quer ele seja nominalmente conhecido ou anônimo, não escreveu apenas para registrar dados do passado. Afinal, ele é o objeto da inspiração do Espírito Santo. Ele desejou com sua obra ensinar, confortar, exortar e transformar a vida de um determinado grupo de leitores ou ouvintes que enfrentava dilemas concretos em sua própria época.
Essa digressão é para enfatizar que algumas histórias bíblicas foram registradas de forma escrita muito tempo depois do seu acontecimento original. O livro pode ser, e muitas vezes é, bem posterior aos eventos que ele narra. Isso parece claro em vários momentos do texto sagrado. Afinal, o autor do livro de Crônicas não estava presente para acompanhar a construção do Templo de Salomão; ele escreveu séculos depois, para um povo que voltava do exílio na Babilônia e precisava reorganizar o culto. Mas nem sempre a leitura atual percebe essa diferença entre o tempo do texto e o tempo do evento narrado.
Se o objetivo é estudar a teologia bíblica, o sensato, neste caso, é dar prioridade ao momento em que o livro nasceu e não apenas ao momento em que o evento se deu. Para a teologia bíblica, muito mais importante do que conhecer os fatos das histórias é saber por que razões espirituais elas foram preservadas e registradas daquela maneira específica.
Fazer essa distinção nos ajudará a não sermos superficiais e a perceber com clareza a relação entre o evento registrado e o propósito espiritual que o autor desejou alcançar com o seu registro.
Para a Igreja hoje, esse princípio nos lembra que ler a Bíblia não é transformar versículos isolados em regras frias, mas discernir a pedagogia divina por trás das palavras inspiradas. Assim como as primeiras comunidades judaicas ou cristãs precisaram aprender a ouvir e viver a verdade em suas próprias situações, somos chamados a ir além da letra, abrindo as Escrituras em nossos lares, pequenos grupos e púlpitos, e perguntando não apenas o que diz o texto, mas como o propósito inspirado pode transformar o caráter dos crentes e seu testemunho no mundo atual.