A Ceia do Senhor, juntamente com o batismo, são as duas ordenanças estabelecidas pelo próprio Senhor Jesus, sendo ambos de natureza simbólica. Especificamente, a Ceia do Senhor, é uma cerimônia da Igreja reunida, comemorativa e proclamadora da morte do Senhor Jesus, simbolizada por meio dos elementos: o pão e o vinho (isso consta na declaração doutrinária da Convenção Batista Brasileira, no artigo IX).
Como Batista convicta, sou suspeita para falar, mas a celebração da Ceia na perspectiva Batista para se destacar em beleza e profundidade não precisa do místico da transubstanciação, nem da consubstanciação, como adotam outras vertentes cristãs, as quais respeitamos. Mas, as direções apontadas pela Ceia do Senhor, na forma simples e direta como os Batistas celebram, nos imergem em um passado (em memória), futuro (até que Ele venha) e introspecção (examine-se), de forma prática, todavia, profunda.
De acordo com o texto de I Coríntios 11, dos versos 23 ao 31, podemos extrair essas direções. E a primeira direção que a Ceia do Senhor aponta é para o passado (versos 24, 25): “e, tendo dado graças, partiu-o e disse: "Isto é o meu corpo, que é dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim”. Da mesma forma, depois da ceia ele tomou o cálice e disse: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto, sempre que o beberem, em memória de mim"”.
Chamo a atenção do caro leitor para a expressão “em memória”, que significa fazer lembrar, recordar. E em uma sociedade que não preserva a história, fazendo parte de uma geração que não retém os fatos, vivendo em uma era que o esquecimento é um hábito, nos tornamos um povo desmemoriado.
Costumo me referir aos nossos dias como uma era “palimpséstica”. O método palimpsesto era utilizado na antiguidade como meio de raspagem de um pergaminho para que esse fosse reutilizado. O pergaminho, um material de escrita da antiguidade, tinha um alto custo, pois era produzido com peles ressecadas dos animais. E, por ser um material caríssimo, o método palimpsesto era utilizado, dando lugar para reescrever outras coisas no pergaminho. Assim, muitos documentos históricos, poéticos e filosóficos foram perdidos, caindo até no esquecimento.
E esse método de raspagem parece estar bem presente nos nossos dias. Esquecemos com muita facilidade e nem sempre isso se dá por motivos justificáveis. Porém, muitas vezes esquecemos porque não damos a devida atenção e importância às coisas. Contudo, a Ceia do Senhor nos remete a exercitar a memória, a lembrar que o Senhor Jesus teve Seu corpo em flagelo e o Seu sangue derramado em nosso favor. E a Ceia do Senhor aponta para esse passado que deve estar presente em nossa memória.
A segunda direção que a Ceia do Senhor aponta é para o futuro (verso 26): “Porque, sempre que comerem deste pão e beberem deste cálice, vocês anunciam a morte do Senhor até que Ele venha”. A expressão-chave agora é “até que Ele venha”. Há uma promessa da volta do Senhor Jesus, e a Ceia do Senhor aponta para essa promessa futura. A promessa grandiosa do retorno de Cristo deve ser algo que todo cristão anseia e anela. Porém, muitos vivem alheios a esta promessa, vivem o aqui e o agora, indiferentes ao futuro retorno de Cristo, um evento eminente, com a expectativa de ser iminente. E a Ceia do Senhor aponta para este futuro, até que Ele venha.
E a terceira direção que a Ceia do Senhor aponta é para dentro (verso 28): “Examine-se o homem a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice”. O termo grego para examinar é dokimazo (δοκιμάζω) e significa, a partir de um teste, de uma avaliação, verificar se algo é genuíno ou digno. Trata-se de uma autoavaliação, autoverificação, autorreflexão. Ah! Como costumamos com mais facilidade avaliar e verificar a vida dos outros. Mas, a Palavra de Deus, na Sua sabedoria e perfeição, diz para nos examinarmos. E olhar para dentro de nós é verificar nossas intenções, motivações, pensamentos e sentimentos. É olhar para nós mesmos e verificar nossa conduta, nosso falar, nossas atitudes nas relações interpessoais.
Travamos uma espécie de solilóquio, uma conversa consigo mesmo, um auto confronto. A Ceia do Senhor é um momento nosso com Deus, nosso com nossos irmãos e um momento só nosso também. Um momento de olhar diante do espelho da alma, autoavaliar-se, pedir perdão pelos pecados cometidos e se arrepender. Pois, a Ceia do Senhor não é para nossa condenação, mas uma oportunidade para a reflexão e mudança de direção.
E essas são as direções apontadas pela Ceia do Senhor: para o passado, para o futuro e para dentro de nós. Como é bom celebrar este cerimonial nesta perspectiva, sem questões místicas envolvidas, mas cheio de beleza, profundidade e praticidade.
Nédia Galvão, Membro da Igreja Batista da Restauração - Missão Batista em Macambira - SE; capelã escolar; especialista em Ciência da Religião; especialista em Docência; bacharel em Teologia.