Na 105ª Assembleia da Convenção Batista Brasileira (CBB) terminada há alguns dias na cidade de Salvador - BA, a denominação foi presenteada com a eleição da sua diretoria com líderes amados e, entre eles, dois pastores jovens na composição da sua diretoria: pastor Raphael Abdalla como nosso presidente e pastor William Menezes como nosso segundo vice-presidente. E, mais ainda, na Ordem de Pastores com pastor Riedson Filho, pastor Diego Bravim e pastor Abraão Neto, ao lado de outros colegas também líderes.
Esse fato nos amplia em muito amplas oportunidades que a percepção das novas gerações pode nos trazer para ampliar e dinamizar ainda mais o cumprimento da missão da própria CBB que é “Viabilizar a cooperação entre as Igrejas Batistas no cumprimento de sua missão como comunidade local.”
Essa redação da missão da CBB é significativa e podemos destacar três palavras chaves: cooperação, igrejas batistas e missão da igreja.
No mundo contemporâneo o sentido da cooperatividade é fundamental diante do individualismo fomentado especialmente a partir do Iluminismo, movimento originado na Modernidade, que tem sido amplificado e potencializado na Pós-modernidade em que cada pessoa (indivíduo) passa a ser o legislador e juiz de suas decisões e atos. Nesse sentido o mundo acaba se resumindo na visão de mundo que cada pessoa-indivíduo possui. Isso afeta a compreensão do que seja a verdade factual, pois cada um decide o que bem entender. Então estamos em um mundo em que a verdade não é universal e baseada nos fatos e na realidade, mas na percepção e sentimento de cada pessoa. Assim um mundo em que as verdades são individuais, mas também plurais, pois cada um tem o direito de definir o certo e o errado ao seu modo.
Cooperar envolve abrir o espaço da geografia pessoal para participar com outros de um desafio comum. Então unir esforços, dialogar, atitude aprendente, respeito, escuta atenta mais do que ativa, generosidade, e tudo isso se resume apenas em uma palavra-chave que é amor.
Mas há um ponto a ser considerado que é a compreensão matricial que temos da autonomia da igreja local, que tem sido possível notar, infelizmente, que tem sido aplicada ao ambiente pessoal e acaba potencializando o individualismo. Mas também no âmbito institucional, quando entidades e instituições no âmbito denominacional desejam ser autônomas e independentes e aí os esforços se fragmentam.
As outras palavras-chave que podem ser consideradas unidas: igreja e missão-da-igreja, como o foco ou destino de toda perspectiva e atividade convencional e denominacional. Novamente precisamos voltar nosso olhar para o mundo contemporâneo em que a compreensão do que seja igreja muitas vezes está bem distante do sentido sobre isso no Novo Testamento. E quando falamos em missão da igreja o campo da missiologia hoje nos ensina a importância de considerar que esse importante componente definidor do rumo da própria igreja precisa ser conectado em Deus e em sua missão (missĭo Dei) em restaurar a criação e a criatura por meio de seu Filho Jesus Cristo (Efésios 1).
E, nesse ponto, precisamos relembrar o que o missiólogo Christopher Wright nos ensinou: “[…] não é tanto que Deus tenha uma missão para sua igreja no mundo, mas que Deus tenha uma igreja para sua missão no mundo. A missão não foi feita para a igreja; a igreja foi feita para a missão: a missão de Deus […] A missão surge do coração do próprio Deus e é transmitida de seu coração para o nosso. A missão é o alcance global de um povo global que pertence ao Deus global […] Como parte dessa missão divina, Deus chamou à existência um povo para participar com ele na realização dessa missão. Toda a nossa missão procede da prévia missão de Deus”.
Aos poucos aqui em nossa nação temos notado que essa visão, que tem sido conhecida como “visão missional”, tem aberto espaço para o aprofundamento da compreensão do que seja igreja e seu papel diante de todo propósito de Deus (Atos 20.27; cf. Efésios 1.9,10). E essa percepção amplia e também aprofunda até mesmo a visão missionária pois a estende a cada cristão, cada membro da igreja que tem diante de si ampliado o seu papel para além de alguém que apenas contribui financeiramente para a obra missionária, passando a ser NOS OUTROS SEIS DIAS um enviado de Deus para ser uma testemunha viva de transformação na vida que a salvação lhe proporciona tornando-se a tradução, mas também a vitrine da realidade transformadora das Boas novas em sua vida e, como consequência, o agradável perfume do Evangelho (II Coríntios 2.15). Assim será possível ampliar a conquista de pessoas pelo Evangelho, por meio da ação missionária e por meio da ação de cada cristão no seu cotidiano.
E, dessa forma, a Igreja vai muito mais além de ser um ponto de encontro de final de semana, como nos lembra o missiólogo Michael Goheen “A igreja é um povo enviado ao mundo sete dias por semana como testemunhas do reino de Deus, em contraste com a igreja como um povo reunido um dia para adoração [e ocupação religiosa]”.
Há uma citação que tenho repetido em diversos artigos, também de um missiólogo, Ed Stetzer, quando nos ensinou que “se vivo uma vida missional, vivo uma vida moldada pela missão de Deus (missĭo Dei)”. Então é possível deduzir que, a partir de minha conversão, o meu projeto de vida, minha agenda e prioridades fazem parte agora do projeto da missão de Deus (missĭo Dei) e eu me entrego como sua ferramenta para que ele, em sua missão de restaurar toda criação e criatura, me tenha como seu instrumento. E, assim, cada cristão unido à sua igreja, com seus dons e talentos, passa a ser ferramenta de Deus 24/7/365 (tempo integral; Lucas 9.23). E aqui entra a Grande Comissão em que o discipulado (Mateus 28.18-20) é A estratégia de Jesus na transfusão de vida madura àqueles que se rendem aos pés do Mestre.
Todo esse desafio demonstra a necessidade de descobrir oportunidades para além de nossos espaços dominicais e institucionais, e aprendermos a desenhar o perfil da cultura contemporânea, descobrirmos os riscos que ela representa para a sadia vivência de nossa fé em um mundo secularizado e sem Deus e como plantar igrejas, fazer missões, ser profissional, estudante, manter nossos lares e formação de filhos, diante desse cenário insalubre para nossa fé, buscando viver os inegociáveis valores bíblicos.
Temos aprendido que novas gerações são mobilizadas por ideais, por causas que lhe encantem ao que se entregam e dedicam suas energias e sabedoria vinda de Deus. Conseguem visualizar outras perspectivas de um enorme empreendimento tal como a Convenção e seus gigantescos desafios em cumprir sua missão.
Estando já há algum tempo na jornada denominacional, nosso principal papel nesse momento é ouvir nossas novas gerações, por meio do que é chamado de “escuta atenta”, descobrir realidades de mundo e espaços da vivência humana que poderemos não estar conseguindo enxergar com detalhes e como tudo isso é significativo para o cumprimento de nossa missão denominacional.
Novas gerações nos trazem alegria, nos trazem esperança de que novos ciclos podem e precisam ser fortalecidos em todas as nossas perspectivas de futuro dentro de um senso denominacional e institucional, proporcionando vida ininterrupta de nossa história.
Novas gerações nos ajudam a promover um processo de “revisão de vida e de futuro”, pois já precisam ir assumindo o comando e gestão de um futuro que já está aqui às portas de nosso presente.
Podemos estar seguros com propostas e projetos em andamento, podemos já ter bons resultados, e tudo isso é muito bom e precisamos juntos aprender a valorizar. E as novas gerações, sendo ouvidas, nos ajudarão a aprofundar os ideais que historicamente já temos nutrido ao longo de nossa jornada institucional e denominacional. As novas gerações poderão muito nos ensinar, abrir ainda mais nossa mente, promover ainda mais a dinamização de nosso atendimento às igrejas e ao reino de Deus no cumprimento do papel que Deus tem nos confiado.
Estejamos abertos às novas gerações, tenhamos ânimo e coragem em tê-las ao nosso lado. O diálogo regado com amor, carinho e comunhão vai também abrir espaço para que as novas gerações possam valorizar a nossa história institucional e denominacional construída até esse momento, para que possam também unir-se lado a lado conosco no cumprimento da nobre missão que como Convenção temos, amplificando ainda mais as bênçãos de nosso Deus para os batistas brasileiros.
Sejam bem-vindas novas gerações de líderes denominacionais.
Lourenço Stelio Rega