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“As Igrejas sairão dessa crise transformadas em vários aspectos”

Deus está castigando a humanidade? O coronavírus é sinal que Jesus está voltando? Estado Mínimo, Capitalismo Selvagem, Consumismo Exagerado são soluções para o homem moderno? O Cristianismo tem resposta para a humanidade neste momento? São perguntas que você terá resposta nesta entrevista com Carlos Novaes, Mestre em Teologia, pastor da Igreja Batista Barão de Taquara-RJ e professor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.

 

Uma indagação sempre levantada em tempos assim é: Deus está castigando a humanidade?

 

De fato, é um pensamento recorrente. Se recordarmos duas grandes pandemias do passado - a Peste Negra, no século 14, e a Gripe Espanhola, no início do século 20 - veremos que as reações foram as mesmas nesse sentido. As pessoas, perplexas e confusas, logo se perguntam: é o juízo divino sobre o mundo? No tempo em que o HIV foi descoberto, muitos afirmavam ser uma manifestação da ira divina contra os homossexuais, e coisas do tipo. E o tsunami que matou milhares de pessoas em Indonésia também foi visto como o juízo de Deus sobre os pagãos.

 

Diante das grandes tragédias e catástrofes, o ser humano quer explicações, quer entender o sentido ou o significado daquela ocorrência. E, normalmente, essa costuma ser a explicação mais imediata e prática: é um castigo divino. Por falta de explicações melhores, acabamos ficando com aquela que está mais à mão.

 

Não acredito em catástrofes naturais como manifestações do juízo de Deus. Até porque todos são vítimas de tais tragédias: ateus e piedosos, promíscuos e celibatários, católicos e protestantes, cristãos e pagãos.

 

Uma relação inevitável por parte de alguns é com a visão apocalíptica. Como encara isso?

 

É outra reação recorrente diante de tragédias e de qualquer novidade que esteja acima da nossa compreensão. Acho que devemos sempre lembrar o seguinte: terremotos, guerras e epidemias - que o próprio Cristo citou nos discursos escatológicos como sinais do fim - não passam disso: sinais do fim. E não de que o fim já esteja chegando.

 

Terremotos, guerras e epidemias são coisas com as quais a humanidade lidou em toda a sua história. Hoje atinge muito mais gente porque há muito mais gente no mundo do que em séculos anteriores. E sabemos com mais rapidez de tais ocorrências porque contamos hoje com os moderníssimos veículos de comunicação. Mas sempre houve tais tragédias na história do mundo.

 

Cristo disse que são sinais de que Ele vem. E não sinais de que já está às portas. É claro que hoje Cristo está mais perto de voltar do que há dois mil anos atrás, quando os cristãos acreditavam que Ele voltaria em breve. Particularmente acredito que o mundo ainda vai durar muito. Virão ainda outras tantas civilizações. Toda civilização quer acreditar que é a última da história. Mas assim como as civilizações passadas e os impérios - o egípcio, o assírio, o babilônico, o grego e o romano - vieram e se foram, a nossa civilização também passará e outras virão.

 

É ruim para o nosso ego aceitar isso, mas não seremos mais do que um capítulo a mais nos livros de história.

 

Templos vazios, pregação e louvor com uso da tecnologia, geração que nunca experimentara isso. Que lições pode-se tirar?

 

Acredito piamente que essa pandemia, quando acabar, terá nos colocado definitivamente no mundo da comunicação virtual. Não seremos mais os mesmos, nem a sociedade, no que se refere a essa questão. É uma das mudanças que irá ocorrer. Não será mais possível menosprezar tais tecnologias ou permanecer indiferente às ferramentas da comunicação ou interação virtual.

 

Todas as crises são travessias para algo. A palavra crise se vincula à palavra crisol - que é o cadinho, o recipiente onde se faz a fundição de substâncias para resultar em algo diferente. Metaforicamente, o crisol é a circunstância apropriada para evidenciar as qualidades de alguém, a firmeza de um caráter. Então, a crise é esse momento do qual, quando bem aproveitado, saímos maiores, transformados, com o caráter lapidado.

 

As Igrejas sairão dessa crise transformadas em vários aspectos. Acho que nesse aspecto do uso das ferramentas tecnológicas, como recursos para a proclamação do Evangelho, também teremos uma grande transformação.

 

Há quem afirme que o mundo será outro após a Pandemia e que todos terão que se reinventar. E as Igrejas, terão que se reinventar também?

 

De certa forma, minha resposta anterior já elucida essa questão. Para acrescentar, então, vou recordar a máxima dos protestantes logo após a Reforma: Igreja reformada sempre se reformando.

 

O que impede a Igreja de se fossilizar é a capacidade de se reformar. De se autocriticar (acredito firmemente que a capacidade da autocrítica é uma das grandes bênçãos concedidas pela graça divina ao cérebro humano). De se avaliar. Somente quando o filho pródigo parou para pensar e se avaliou, e se olhou no espelho, foi que a mudança começou a acontecer em sua vida.

 

Chega o momento em que olhar no espelho é fundamental para mudarmos, para que aconteçam as reformas imprescindíveis, as reformulações inadiáveis. É claro que para tanto se faz necessária a coragem. Para olhar no espelho, para a autocrítica, para a avaliação de nós mesmos, precisamos de uma boa dose de coragem. Só corajosos se olham e se examinam. “Cada um examine a si mesmo”, é o conceito paulino de autocrítica para que as transformações ocorram a partir da Ceia do Senhor, naquele momento de intimidade profunda com o Senhor da Ceia. Não adianta participar da Ceia do Senhor sem se expor diante do Senhor da Ceia.

 

Sim, se tiverem a coragem da autocrítica, se seguirem o conceito de “eclesia reformata semper reformanda”, as Igrejas vão se reinventar, se readaptar, se readequar aos novos tempos, aos novos desafios, aos novos horizontes.

 

Em sua avaliação, como será o ser humano individualmente?

 

Outro dia estava dizendo para Jussara, minha esposa: “Nunca gostei de aglomerações. Acho que eu estava certo”. É claro que isso é uma brincadeira. Mas estou desconfiado que muitos deixarão esse confinamento com grande desejo de conviver socialmente, e valorizar ainda mais o convívio presencial.

 

Por outro lado, acredito que entramos definitivamente, e de modo muito mais amplo do que antes, na era da comunicação virtual. Acredito que o ser humano se tornará ainda mais dependente dos instrumentos digitais. O aparelho celular servirá como uma espécie de um terceiro braço, uma extensão natural do corpo.

 

Mesmo os mais idosos, que demonstravam alguma resistência ou alguma dificuldade em lidar com a tecnologia digital, estarão mais desinibidos e familiarizados com tais técnicas. Por exemplo: pedi à líder do Ministério da Terceira Idade em nossa igreja que me passasse a lista dos nossos idosos que possuíam contas de whatsapp. Eu quis criar uma linha de transmissão para passar a eles, diariamente, um vídeo com reflexões e mensagens de encorajamento. Imaginei que receberia uma lista com 15 ou 20 pessoas. Recebi uma lista de quase 80. Quase 80 idosos, com idade superior a 70 anos, que estavam mexendo, com a maior naturalidade, na rede de comunicação do WhatsApp.

 

Então é isso. Desconfio que o ser humano, individualmente, será alguém que valorizará mais os contatos pessoais e, ao mesmo tempo, o uso das ferramentas digitais para se comunicar melhor.

 

Estado Mínimo, Capitalismo Selvagem, Consumismo Exagerado, temas que para muitos estão sendo frontalmente atacados neste momento. Como um cristão enxerga, ou pelo menos, deve enxergar isso?

 

Acho que nem nos piores pesadelos dos nossos economistas liberais chegaram a imaginar que estaríamos tão dependentes do apoio financeiro do Estado, como ficamos e ficaremos no período pós-pandêmico. É interessante essa ideia de mercado livre e independente do Estado. Só resiste enquanto o mar está em bonança. E, como na maioria das vezes o mar fica encapelado, não dá para tornar essa postural liberal de Estado mínimo em um princípio imutável e absoluto. Os acontecimentos atropelam nossas agendas e nossas ideologias. Nos Estados Unidos, por exemplo, os liberais costumam ser contra o sistema universal de saúde porque é interferência exagerada do Estado, mas quando se trata de salvar bancos e banqueiros, a ideia de interferência estatal se flexibiliza com uma elasticidade de dar inveja às massinhas de brincadeiras de crianças.

 

Deixando à parte os radicalismos de direita e esquerda, de liberais e estatais, que tanto deturpam a realidade, acredito que um cristão sempre há de tomar por medida de equilíbrio o valor da vida e a conduta ética entre seus pares. A vida tem tanto valor para Deus que Ele entregou seu próprio Filho para que vivêssemos. E na questão do convívio ético, o evangelho nos ensina que o princípio fundamental é o amor - no sentido do ágape: a disposição mental de fazer bem ao próximo. Ao mesmo tempo que colocamos em prática o princípio ético fundamental, o princípio da reciprocidade, o princípio áureo de todas as tradições religiosas, encontrado em Confúcio, em Buda, no Judaísmo, no Islamismo e também mencionado por Jesus no Sermão do Monte: façamos aos outros o que gostaríamos que fizessem a nós (ou vice-versa: não façamos aos outros o que não gostaríamos que fizessem a nós).

 

O Cristianismo tem uma resposta para a humanidade neste momento?

 

A mesma de sempre: dependência da graça divina e disposição de ser instrumento dessa graça de modo prático aos nossos semelhantes. É o coração do evangelho. O resto são as ressonâncias e decorrências disso.

 

Considerações Finais:

 

Desejo que atravessemos essa crise em busca dos aperfeiçoamentos que as crises promovem em nosso caráter. As crises nos lapidam, nos aperfeiçoam e despertam as virtudes que ficam adormecidas. Fica aqui aquela antiga sugestão: não desperdicemos uma boa crise. Que, no final, o resultado de tudo sejam, especialmente, que nos tornemos pessoas melhores. A graça de Deus nos ajude nesse propósito.