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A importância do ensino religioso nas Escolas Batistas (02)

O Ensino Religioso nas Escolas Batistas sempre foi considerado de extrema importância. Ele procura traduzir para o dia a dia da sala de aula o quanto a experiência religiosa tem sido significativa na história da humanidade. São estudos que revelam, dentre outras coisas, que o ser humano não basta a si mesmo e está sempre à procura do outro infinito.

 

É que carregamos na alma a sensação de que algo nos falta, e essa falta não se resolve pura e simplesmente na imanência – entendida como um processo de existência que se encerra em si mesmo, precisando desse algo mais que se apresenta de maneira sempre esperançosa na ideia de transcendência – compreendida como a busca de uma causa maior, fora de nós mesmos, que nos convida a seguir na caminhada, melhorar sempre e aprender a lidar com os dilemas da existência humana.

 

Nesse movimento que faz para além de si próprio, da imanência à transcendência, o ser humano cria, de um lado, a possibilidade de que, em uma perspectiva horizontal, venha a se encontrar com seu próximo, entender algumas de suas razões, alguns dos seus desejos e sentimentos; e, por outro lado, em perspectiva vertical, abre-se para uma relação mais significativa com o Criador.

 

Busca-se aqui uma compreensão a respeito do modo como, progressivamente, elaboramos a nossa consciência a respeito de quem somos, de quem o outro é e de quem Deus é. Gera-se aqui um conhecimento que visa a tentativa de compreender como essa consciência que deve se ampliar passo a passo, se constitui tendo como ponto de referência o Absoluto enquanto atingível pela inteligência. É esse conhecimento que é traduzido para o dia a dia da sala de aula, considerando as demandas próprias de cada faixa etária no processo de ensino-aprendizagem.

 

Para as Escolas Batistas, essa preocupação sempre existiu. De certo modo, a afirmação de Hamlet, inesquecível personagem de William Shakespeare, “há muito mais coisa entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia”, tem estado entre nós desde sempre. Essa percepção que vem acompanhada de um respeito enorme pela ciência – daí, certamente, o nosso foco em educação; vem acompanhada, também, da sensação de que quanto mais conhecemos, mais se abrem portas para novos conhecimentos. É que todo o conhecimento produzido ao longo dos séculos não é suficiente para explicar toda a realidade que nos cerca.

 

É nesse sentido que as Escolas Batistas buscam criar um ambiente de estudos científicos o mais aprofundado possível e, de outro lado, reafirmam ou reforçam as nossas confissões de fé que apontam, por exemplo, para o universo da formação socioemocional, buscando contribuir para que cada estudante desenvolva a compreensão de que, por mais que aprendamos, tem sempre algo que nos escapa, por ser inatingível pela potência humana.

 

É assim que, desde o final do século XIX e princípio do século XX, quando da inauguração da maioria de nossas escolas, dois princípios sempre foram fundamentais: de um lado, a base confessional, ou seja, o conjunto de crenças de caráter fortemente identitário, que aponta para aquilo que somos, que revela nossos sonhos, que embasa nossas metas e objetivos. De outro lado, a busca da excelência acadêmica que tem levado nossas escolas Batistas a impactarem positivamente a sociedade brasileira através, especialmente, dos seus egressos. Falar de Ensino Religioso, portanto, significa uma permanentemente abertura ao diálogo, fé e cultura.

 

Embora não atuando de modo proselitista, ou seja, sem preocupação de caráter doutrinário, o Ensino Religioso tem sido um pilar importante para que as verdades bíblicas possam alcançar a todos que entram em contato com elas. Não é por acaso que alguns observadores mais atentos consideram que, de um modo geral, os espaços de convivência de nossas escolas, se assemelham a campos missionários, onde o conhecimento de Cristo e do Evangelho se dá por aquilo que se ensina, mas, sobretudo, por aquilo que se vive.

 

Essa preocupação tão própria dos que trabalham com Ensino Religioso na formação de cidadãos com valores éticos e morais mais sólidos é terra fértil que torna ainda mais possível o surgimento de uma nova geração de pessoas que se envolvam mais com a busca da paz, da justiça, da solidariedade etc.

 

É, indiscutivelmente, uma forma de nos contrapormos cada vez mais a essa sociedade contemporânea profundamente marcada por relações, como diria o sociólogo Zigmunt Bauman, líquidas, frágeis e sem muito fundamento. Hoje em dia, muitos dos nossos jovens se tornaram ultra especialistas em tecnologia, mas em grande medida, perderam o sentido do que significa ser “gente”, do que significa o encontro humano, da importância de se viver uma vida de compartilhamento.

 

O Ensino Religioso se apresenta, portanto, como um ensino para a vida. Quando o estudante aprende sobre ser bondoso, respeitoso, solidário, criativo ou até mesmo ousado, a experiência da alteridade ganha enorme protagonismo em sua vida, tornando-o mais capaz de entender os outros, estabelecendo alianças e parceiras que visam ao bem comum.

 

Quando a BNCC - Base Nacional Comum Curricular propôs elevar o Ensino Religioso à condição de área de conhecimento, de certo modo, tornou oficial uma prática comum às Escolas Batistas desde sempre. No entanto, é possível verificar que, ao elaborar as competências para o Ensino Religioso, ampliou-se, de modo significativo, o leque de possibilidades para que importantíssimas habilidades sejam desenvolvidas ainda mais.

 

As competências propostas pela BNCC para o Ensino Religioso visam o desenvolvimento de habilidades que, trabalhadas em diálogo com a fé cristã, sem dúvida nenhuma, podem contribuir para a formação de um novo cidadão. Ela propõe que o estudante deve conhecer os aspectos estruturantes das diferentes tradições, movimentos religiosos e filosofias de vida, a partir de pressupostos científicos, filosóficos, estéticos e éticos.

 

Que ele deve compreender, valorizar e respeitar as manifestações religiosas, suas experiências e saberes, em diferentes tempos, espaços e territórios. Que ele precisa reconhecer e cuidar de si, do outro, da coletividade e da natureza, enquanto expressão do valor da vida. Que saiba conviver com a diversidade de crenças, pensamentos, convicções, modos de ser e viver. Que seja capaz de se exercitar na análise das relações entre as tradições religiosas e os campos da cultura, da política, da economia, da saúde, da ciência, da tecnologia e do meio ambiente.

 

Que seja capaz de se assentar em uma mesa de debates, problematizar e posicionar-se frente aos discursos e práticas de intolerância, discriminação e violência de cunho religioso, de modo a assegurar os direitos humanos no constante exercício da cidadania e da cultura de paz. Diante de tudo isso, poderíamos perguntar se teríamos condições de transitar por esse espaço tão amplo de possibilidades que nos está sendo proposto?

 

Bem, eis aí um debate em aberto. A princípio, se as bases confessionais de nossas instituições educacionais são sólidas o suficiente, não teríamos que temer nada. Como o trabalho com o Ensino Religioso proposto pela BNCC – como, de resto, em todas as outras áreas do conhecimento, pretende respeitar as peculiaridades de cada escola, cada estado, cada região do país, então se trata mesmo de entrarmos com toda a firmeza possível nesse novo campo de batalha, mas, certamente, amparados pela armadura do cristão, como sugerido pelo apóstolo Paulo na carta aos Efésios 6.13-20.

 

O fato é que, o Ensino Religioso sempre foi considerado pelas Escolas Batistas como algo de enorme importância. Só que os dias de hoje, como aconteceu com o apóstolo Paulo em sua visita a Atenas, nos convidam a chegarmos até ao “Areópago” da discussão de ideias que nos permitam compartilhar de modo ainda mais significativo o nosso olhar sobre a realidade e aprender com os olhares dos outros.

 

Essa possibilidade de encontro nos remete à experiência de Paulo em Atenas. Ao perceber a enorme quantidade de monumentos dedicados a todo tipo de divindade, Paulo se dirigiu aos seus interlocutores dizendo: “Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos, pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio” (At 17.22, 23).

 

Interessantemente, o apóstolo Paulo não menosprezou a cultura religiosa dos gregos, mas, a partir dela, abriu um extraordinário ponto de contato – o Deus desconhecido, que permitiu que ele partilhasse com aqueles cidadãos o Deus em quem ele verdadeiramente cria. Eis aí uma experiência que pode contribuir para que o Deus desconhecido ainda por tantos possa, efetivamente, ser partilhado com todos.

 

O Deus que fez o mundo. Que não é resultado das construções ideológicas humanas que querem usá-lo para justificar o injustificável. O Criador dos povos, das mais diversas etnias, das culturas mais distintas que, em Cristo, busca sempre se aproximar de nós. O Deus que nos faz existir, que nos convida a seguir adiante, que sendo o Deus da vida, nos convida a vivê-la em sua plenitude.

 

Rubens Eduardo Cordeiro, pastor, psicólogo, especialista em Psicanálise, mestre em psicologia, doutor em Teologia, capelão Geral da Rede Batista de Educação

 

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