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Casamento à prova da quarentena

É fato que a quarentena por conta da pandemia da COVID - 19 trouxe várias mudanças nas rotinas das pessoas, das famílias e dos casais. Todas as esferas humanas foram afetadas por conta do distanciamento social, da crise econômica e da limitação de locomoção. No entanto, as famílias tiveram que, de uma hora para outra, ficar confinadas no mesmo ambiente. Nos primeiros dias, até que foi diferente para muita gente, afinal de contas, não dava para ficar juntos por conta da vida agitada (características de nosso tempo), mas, com o passar do tempo, essa hiper convivência trouxe sérios problemas aos relacionamentos familiares, e, consequentemente, muitos casais não souberam lidar com o cônjuge o tempo todo ao seu lado.

 

Pesquisas apontam um aumento significativo no número de divórcios nesse tempo. Me trouxe grande espanto algumas reportagens sobre o número assustador de divórcios. Junto a pandemia do coronavírus vieram outros problemas, entre eles o divórcio. Segundo a revista Pais e Filhos, houve uma procura de 177% por advogados para tratar questões de divórcios. O fenômeno não é apenas de nosso país, mas do mundo, ao passo que países como China, Estados Unidos, Itália, Portugal, Austrália e África do Sul também tem índices alarmantes.

 

O portal da Globo, o G1 da região de Sorocaba e Jundiaí, trouxe uma reportagem perturbadora com o número devastador de que se elevou mais de 900% durante a pandemia na cidade de Sorocaba, ou seja, os casamentos em Sorocaba e no Brasil estão ruindo. Nesta sociedade, em que “tudo é descartável”, as pessoas casam-se e pensam que podem e devem se divorciar por qualquer motivo. Alguns religiosos perguntaram isso a Jesus, se eles poderiam “repudiar a mulher por qualquer motivo”, ao passo, que Jesus sai em defesa do casamento segundo os moldes de Deus, o Criador dos céus e da terra. Jesus sai em defesa do casamento como primeira instituição humana (cf. Mateus 19.3-12/ Gênesis 2.18- 25). A facilidade de se pedir o divórcio pela internet ajudou e incentivou os casais a entrarem com o pedido na quarentena.

 

A hiper convivência expôs e trouxe a luz problemas de convivência dos casais, que eram mascarados pela busca pelo sucesso profissional ou pela correria cotidiana, mas que agora, na quarentena, precisou ser tratado para conviver o tempo todo ao lado do cônjuge. Tal convivência forçou os casais a tentarem resolverem a situação do casamento, e, infelizmente muitos, fugindo das responsabilidades, dos desconfortos que as mudanças causam, e de reconhecer suas falhas e erros, julgaram que a melhor saída seria a separação.

 

É mais fácil se render ao fatalismo do que tratar e restaurar o casamento, que noutro tempo fora motivo de alegria, festa e lindas declarações de amor. Os rancores, mágoas e desavenças vieram à tona e as acusações e provocações emergiram, e os casamentos não conseguiram sobreviver. Com a pressão do trabalho no estilo home office, com a perda ou a diminuição da renda, com as questões mal resolvidas do passado, com a alta exposição nas redes sociais (onde se vende a imagem de que tudo é belo e de que todas as pessoas são bonitas e atraentes), os casais que não estavam muito bem, infelizmente, não se sustentaram. A casa caiu! Agora, que era a hora de ajustar tudo, passar o casamento a limpo e ver a força do amor dentro dos lares e dos corações, momento de buscar estratégia para superar as dificuldades, repaginar a relação e continuar avante até que “a morte os separe”, muitos abandonaram a linda e nobre missão da vida conjugal pelo acostamento da estrada da vida.

 

A casa - ou lar - que deveria ser um ponto de equilíbrio nesse mundo confuso, se tornou palco para brigas intermináveis, discussões grosseiras e agressões verbais, psicológicas e físicas. A casa, que deveria ser um reduto de amor, se tornou uma arena de brigas de egos inflados que não se rendem e não aprenderam que a relação conjugal precisa de uma grande pitada de perdão para que o amor possa prevalecer.

 

A casa, que deveria ser um recôndito de compreensão, companheirismo, e de lealdade familiar, se tornou competitivo com propostas indecentes e desumanas, onde os cônjuges se digladiam para se manter em pé em detrimento da queda do outro. O outro, que outrora fora a “pessoa amada”, agora se tornou nesse tempo de quarentena, um oponente que precisar cair ao chão, ou sair da vida da pessoa. As regras dos esportes de competição contaminaram muitos casais infelizmente, que acabaram vendo o cônjuge como um adversário e não como um parceiro (a) para a vida toda.

 

Num passado recente, o lema dos casais era “até que a morte nos separe”, nas últimas décadas passou a ser “até que as dívidas nos separem” e, agora, “até que pandemia nos separe”. A banalização do casamento, tão incentivado por nossa sociedade, sente o reflexo de décadas de desprezo e descaso com essa instituição tão primordial para a vivência social e familiar. O casamento como instituição divina deveria ser uma relação de honra, amor, respeito, lealdade que suportasse tudo, inclusive a hiper convivência da pandemia. A Bíblia diz assim: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio” (Hb 13.4). A orientação bíblica é que o casamento, o matrimônio, deve ser uma relação de honra, respeitosa e digna de imitação diante das pessoas.

 

Que Deus tenha misericórdia de nós e que sejamos sensíveis às orientações do Senhor para perdoarmos o nosso cônjuge, pedirmos perdão e para seguramos firmes na mão do cônjuge para passar e superar as dificuldades desse tempo de quarentena e as demais que virão. Que a hiper convivência nos aproxime mais do nosso cônjuge e não nos afaste. Que nosso lema seja ser feliz ao lado da pessoa amada. Que nossos casamentos suportem tudo, inclusive a pandemia. Creiamos na fala de Jesus de que “Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19.6).

 

https://paisefilhos.uol.com.br/familia/pandemia-do-divorcio-a-procura-por-advogados-aumentou-177-no-brasil-durante-a-quarentena/https://g1.globo.com/sp/sorocaba- -jundiai/noticia/2020/07/15/numero-de- -divorcios-sobe-quase-900percent-durante-pandemia-em-sorocaba.ghtml

 

Jeferson Cristianini - pastor - colaborador de OJB

 

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